© Carlos Teixeira
“A mind that is always comparing, always measuring, will always engender illusion. If I am measuring myself against you… I am denying myself as I am. I am creating an illusion.” - Jiddu Krishnamurti
O April Fools' Day mereceu nesta edição uma reflexão sobre a mentira, o engano, a arte da ilusão e todas as máscaras que criamos, muito além do dia 1 de abril - na verdade, ao longo de toda a nossa vida.

Nariah Nicolle para The Eternal Fools' Day issue
Robin Bergiund
Não sabemos quando, ou onde, nasceu a primeira mentira, mas a capacidade de enganar, ainda que de forma inconsciente, é tão antiga como a própria natureza... nasce da necessidade de sobrevivência desde que existe vida no planeta. A capacidade de camuflagem de algumas plantas e animais que se fundem com a paisagem para se protegerem, ou para atacarem as suas presas, por exemplo. Mas a mentira consciente, essa, creio ser um atributo tão antigo quanto a humanidade. Num mundo primitivo, onde os seres humanos enfrentavam ameaças constantes, mentir poderia ser uma estratégia para evitar perigo ou garantir recursos. Com o tempo, as mentiras evoluíram de uma ferramenta pragmática de sobrevivência para um recurso mais complexo. Quando surgiram as comunidades mais organizadas, com normas e regras sociais mais elaboradas, as mentiras começaram a ser usadas para manipular, esconder erros ou até mesmo moldar a perceção dos outros. Assim, a mentira expandiu-se para além da sobrevivência física, envolvendo também questões sociais e emocionais, como status, poder e controlo. Enquanto os seres humanos forem capazes de construir narrativas sobre si mesmos e sobre os outros, a mentira continuará a existir. A mentira está intimamente ligada à nossa psicologia e à nossa necessidade de controlar ou modificar as perceções que os outros têm de nós.

Val e Mary Hromko para The Eternal Fools' Day issue
Élio Nogueira
A arte da ilusão é uma forma fascinante de manipulação da perceção, onde a realidade é distorcida de maneira tão convincente que a mente humana não consegue distinguir o verdadeiro do falso. Em várias profissões, como a dos ilusionistas, escritores, atores, artistas visuais... a ilusão é usada para criar experiências que desafiam as leis da física, a lógica e a razão. Essas pessoas são mestres em criar uma realidade alternativa, onde o impossível se torna possível. Elas não são apenas artistas, mas também filósofos da perceção, manipulando as expectativas e os sentidos humanos para revelar o quão relativa a nossa compreensão da "verdade" realmente é. Por outro lado, existem aqueles cujas vidas profissionais são dedicadas à busca pela verdade: jornalistas, cientistas, teólogos e filósofos... que se dedicam a encontrar uma compreensão mais profunda da realidade, a desvendar mistérios, expor mentiras e descobrir evidências que sustentem ou desafiem as nossas crenças. Procuram a objetividade e a clareza, trabalhando com dados, factos e análises rigorosas para revelar o que está "escondido" ou "encoberto". No entanto, mesmo nas suas buscas pela verdade, há espaço para interpretações pessoais, visões distorcidas e até erros, já que a verdade, muitas vezes, é uma questão de perspectiva. Curiosamente, a linha entre esses dois mundos não é tão clara quanto parece. A busca pela verdade pode, em muitos casos, ser uma ilusão em si mesma, e a ilusão, por sua vez, pode revelar aspetos profundos da verdade. A verdade, assim como a ilusão, é algo maleável. Todos têm o poder de moldar a realidade e de nos conduzir por caminhos de autodescoberta. A ilusão, por mais que seja uma criação artificial, revela as nossas expectativas, os nossos desejos e os medos mais profundos. E a busca pela verdade, embora muitas vezes pareça ser um processo de desilusão, também é, por sua vez, um tipo de ilusão — a ilusão de que podemos, um dia, alcançar a pureza total do conhecimento de toda a verdade. No final do dia, todos nós mentimos, e de alguma forma, todos nós estamos envolvidos nesse jogo entre a ilusão e a verdade. A arte da ilusão e a busca pela verdade são dois lados de uma mesma moeda, e, talvez, a chave para entender a natureza da nossa existência esteja justamente nesse espaço entre o que é real e o que é imaginário.

One Michelamann para The Eternal Fools' Day issue
Carlos Teixeira
Fools' day, o dia dos tolos (ou o dia dos inocentes) - em Portugal, conhecido como o Dia das Mentiras -, celebra-se praticamente em todo o mundo, no primeiro de abril, um dia que, de alguma forma, permite que as fronteiras entre verdade e ficção se tornem mais flexíveis. Que no Dia da Mentiras, e nesta edição, seja celebrada a nossa habilidade de enredar a realidade com fios de ficção, para que, ao menos por momentos, nos possamos perder na doçura e no riso das partidas e das pequenas mentiras inofensivas e esquecer a amarga realidade dos grandes enganos e desilusões.
Publicado originalmente na edição The Eternal Fools' Day da Vogue Portugal, de abril 2025. For the english version, click here.
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