Casamentos  

Something borrowed, something new: a ascensão dos vestidos de noiva em segunda mão

28 Mar 2025
By Maria Inês Pinto

É esta a velha máxima que dita a sorte de um matrimónio. Contudo, hoje, o “something borrowed” reinventa-se, provando que a Moda nupcial, tal como o amor, foi feita não só para durar, mas para partilhar.

Havia um tempo em que um vestido de noiva era uma peça para uma única noite, uma criação intocada, usada num momento fugaz, antes de ser confinada a camadas de delicado papel de seda e destinada à nostalgia em vez da reinvenção. Era um símbolo de perfeição imaculada, suspenso no tempo — mas o amor, tal como a Moda, evolui. As noivas de hoje rejeitam progressivamente os ditames rígidos da tradição, abraçando algo que talvez seja até um pouco mais poético: um vestido que encapsula um passado, uma alma, uma história. A mitologia do vestido novo, imaculado e congelado em cetim, dá lugar a uma narrativa mais abrangente e com uma profundidade acrescida — seja pelo sentimentalismo, seja pela irreverência da escolha.

Se há anos atrás nos dissessem que o uso de vestidos de noiva em segunda mão seria uma das tendências mais expressivas (e, curiosamente, mais chic) dos nossos tempos, provavelmente não acreditaríamos. Contudo, a obsessão com descobertas vintage já não se cinge à Moda casual e, cada vez mais, invade também o universo bridal, preenchendo-o de propostas que não só possibilitam o uso de artigos singulares, como de criações Couture. O vintage é uma espécie de love affair não só com uma história, mas com o apreço pela arte do savoir-faire, já que estas peças — por não serem encontradas em massa — apresentam detalhes que são característicos de tempos findados, com uma aura que nenhuma peça recém-saída de fábrica pode replicar. Se existe a perceção de que este tipo de vestidos só se encontra em lojas dedicadas a pre-loved, tal pode ser rapidamente refutado com uma breve pesquisa: até algumas das marcas mais populares do setor (como Rosa Clará e Pronovias) têm uma secção dedicada a este efeito. Enquanto isso, outras plataformas de renome no universo pre-loved, como The RealReal e Vestiaire Collective, apresentam uma seleção de vestidos usados e vintage — embora seja importante considerar o risco de encomendar online uma peça desta importância. De uma forma curiosa, esta escolha é um reflexo também de estatuto, como se a raridade e inimitabilidade da peça reflita, por consequência, o (bom) gosto de quem a escolhe.

Para algumas noivas, por sua vez, o vestido perfeito não se encontra numa boutique, mas é herdado, uma peça de família, levada de geração em geração. A renda, as costuras, a própria essência do tecido tornam-se uma ponte entre o ontem e o hoje, um voto de que o amor perdura para além de uma única vida e de uma única história. No entanto, o sentimentalismo deve também dar espaço à reinvenção. Conciliar um tesouro de família com a visão pessoal e uma estética alinhada com a noiva moderna pode ser um desafio — e, sejamos honestos, nenhuma noiva quer um momento à la 27 Dresses, onde alterações se tornam um desastre absoluto (todos nos lembramos da cena com o vestido da mãe de Tess e Jane). O equilíbrio entre preservação e expressão pessoal é delicado, mas quando feito com intenção, resulta num vestido que honra tanto a herança como a individualidade e, sobretudo, é algo impossível de replicar — um fator que traz indiscutivelmente um apreço especial a estas escolhas.

Em contraste direto com os tesouros vintage e herdados, a ascensão dos vestidos de noiva alugados reflete uma nova mentalidade. A posse já não é essencial para a criação de significado, sobretudo para gerações mais novas. Em vez disso, um vestido pode ser uma experiência efémera, usado por um momento, vivido e passado adiante para que outra noiva escreva a sua história. Na verdade, a maioria das noivas descreve este sentido de “irmandade” como um dos principais motivos pelos quais escolheu alugar o seu vestido: a possibilidade de o fazer outra vez brilhar e continuar o legado da peça. O aluguer abre as portas a um luxo outrora inacessível, permitindo que noivas caminhem em direção ao altar envoltas no drama de uma peça Vera Wang ou numa criação etérea Elie Saab: indulgência sem compromisso — até porque a união que se vai celebrar é o único compromisso que fica mais bonito com a longevidade. Ainda assim, vale a pena notar, alugar significa também abdicar de um certo tipo de nostalgia: não haverá um vestido para ser passado de geração em geração, nenhum artefacto físico para ser guardado e estimado. E, no entanto, para algumas noivas, essa impermanência faz, precisamente, parte do encanto: um vestido de noiva pode existir como experiência, não como objeto. A noiva contemporânea não está presa ao passado nem obcecada pela novidade, encontrando o seu espaço delicado entre ambos, e fazendo do "something borrowed, something new" não apenas um verso supersticioso, mas uma espécie de manifesto moderno.


Originalmente publicado no The Bridal Affair, o suplemento de casamentos da Vogue Portugal, integrado na edição de março de 2025, disponível aqui.

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