Não é amor nem paixão: é um sentimento confuso, avassalador e obsessivo que deixa um rasto agridoce. A psicologia chama-lhe “limerência".
Há um momento no turbilhão do que muitas vezes chamamos de “amor” em que tudo parece ganhar uma nitidez quase sobrenatural: as cores tornam-se mais vivas, um toque espalha uma carga elétrica, e a voz da outra pessoa ecoa em nós mesmo à distância. É intoxicante, avassalador e impossível de ignorar. No entanto, por detrás desta euforia familiar, esconde-se uma força que não pertence verdadeiramente ao amor como o entendemos: é uma força compulsiva, esmagadora e que consome cada respiração. Raramente discutida e frequentemente mal compreendida, a limerência é o lado B do romance, uma obsessão doce e amarga que eleva as emoções numa montanha-russa que acaba, muitas vezes, por descer a pique.
O termo “limerência” foi originalmente cunhado pela psicóloga americana Dorothy Tennov nos anos de 1970, após realizar uma série de entrevistas em que constatou que as experiências amorosas de algumas pessoas eram particularmente fortes. Este termo descreve um estado de fascínio obsessivo definido por uma necessidade involuntária de reciprocidade emocional e medo de rejeição, pela idealização do outro e por um desejo tão intenso que roça o limiar do sofrimento. Se o amor é o fogo que arde sem se ver, a limerência é a chama que queima rápida e intensamente, deixando sobretudo cinzas ao seu redor.
Esta “paixão” em estado bruto, um cocktail químico de altos e baixos alimentados pela dopamina que cativa a mente e o coração, é a força motriz por detrás de grandes gestos românticos como os do cinema, mas também de momentos desesperados de dúvida na vida real. Quando retribuída, pode confundir-se com amor intenso ou com a famosa “honeymoon phase" de um casal, onde tudo parece ser perfeito e o desejo cresce diariamente. O estado de limerência não invalida necessariamente o amor: há relações que começam com o êxtase inebriante da limerência e, com o tempo, esta acaba por se transformar num amor mais profundo e muito mais saudável. Contudo, quando o sentimento não é mútuo, esta forma de viver é insustentável e a sua duração varia bastante, com estudos a apontar para intervalos de meses até (muitos) anos.
Considerando, no entanto, que a limerência não implica qualquer reciprocidade, esta diz mais sobre a pessoa que a sente do que sobre a outra, vivendo num constante paradoxo: não é necessariamente a presença real da pessoa — o objeto limerente — que alimenta a experiência, mas sim o anseio por ela, um sentimento que prospera na incerteza e que mantém a mente suspensa entre a esperança e o desespero. Neste panorama, os defeitos do objeto limerente são normalmente minimizados ou ignorados, enquanto qualquer interação é idealizada e excitante. Esta atitude, na verdade, conduz habitualmente a uma desilusão quando a realidade inevitavelmente não corresponde à fantasia e a pessoa limerente tem de lidar com o desencanto — não só relativamente ao outro, mas também a si própria.
A neurociência ajuda a explicar esta intensidade, com alguns estudos a mostrar que o cérebro em limerência está inundado de dopamina, o neurotransmissor associado à recompensa e ao prazer, pelo que este fluxo químico explica os pensamentos obsessivos e os picos de euforia que definem a experiência. Adicionando-se a isto a noradrenalina — uma das monoaminas (substância bioquímica derivada de aminoácidos) responsáveis por influenciar o humor — que aumenta o estado de alerta, fica claro por que razão a limerência é tão avassaladora: as noites em claro, o coração acelerado e a perda de apetite não são só metáforas comuns de grandes romances literários, mas realidades fisiológicas. A limerência é também frequentemente comparada à perturbação obsessiva-compulsiva (POC), já que envolve sintomas semelhantes, existindo inclusivamente algumas pesquisas que indicam que podem estar interligadas. Para além disto, os paralelismos entre a limerência e o vício são impressionantes, sendo os sintomas comparados aos de indivíduos dependentes de substâncias como psicoativos. Em ambos os casos, verifica-se um padrão de desejo, recompensa e abstinência e existe também a consciência de que o comportamento em questão é nocivo, mas travar estes hábitos é, como se sabe, um trabalho difícil.
Importa realçar que a limerência não é apenas um fenómeno químico e está entrelaçada com vulnerabilidades psicológicas. A Teoria do Apego, desenvolvida pelo psicólogo, psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby sugere que as crianças precisam de ter uma relação próxima com pelo menos um prestador de cuidados de modo a garantir não só a sua sobrevivência, mas também um comportamento emocional e social saudável. Esta teoria identifica quatro estilos de apego diferentes, incluindo o “apego ansioso” — mais conhecido como “anxious attachment", onde os indivíduos precisam de segurança e validação constantes, revelando ainda medos de abandono e frequentemente dependência do parceiro. Assim, pessoas com este tipo de comportamento são mais propensas à limerência, já que a sua necessidade de validação amplifica o estado obsessivo. Nesse sentido, a limerência não se apoia na conexão, mas sobretudo na projeção e espelha diversas carências emocionais. Os custos psicológicos deste estado são, em muitos aspetos, aquilo que o define; ao contrário do amor, que nutre e sustenta, a limerência retira mais do que oferece e é tanto um fardo que pesa quanto um desejo que inspira.
Talvez este fenómeno pareça simultaneamente raro e familiar. É um tema relativamente desconhecido, mas não deixa de evocar uma sensação próxima para muitos, e que agora ganha um nome. Dorothy Tennov, no prefácio da edição revista de Love and Limerence (1999) refere que, para quem nunca a vivenciou, a limerência pode soar estranha ou até impossível, sendo por isso encarada como algo patológico. No entanto, sublinha que é um estado normal e que, como constatou nas suas entrevistas, os indivíduos que apresentam esta condição são pessoas absolutamente racionais, funcionais e normais, “não neuróticos e não patológicos”, pelo que a desconfiança que pode surgir em relação a eles é não só injusta, como fundamentalmente errada. A limerência expõe a vulnerabilidade inerente ao desejo: reflete a forma como o anseio pode esbater as fronteiras entre realidade e fantasia e é, acima de tudo, um reflexo materializado das inseguranças e ansiedades de quem a vive.
Embora não seja amor no sentido pleno da palavra, a limerência é algo profundamente humano e mais comum do que aparenta — especialmente num mundo onde as redes sociais intensificam interações fugazes e um simples like ou a confirmação de leitura tornam-se motivos de esperança, pequenas migalhas para quem anseia um sentimento retribuído. Para abordar o tema é essencial ter empatia e compaixão: recuperar prazeres e conexões esquecidas — como amizades, hobbies ou outras obrigações que provavelmente foram negligenciadas no caminho — é fulcral para recentrar as atenções e reconstruir o equilíbrio emocional. Práticas de autocuidado, reforço de autoestima e reestruturação cognitiva são passos importantes para reestruturar pensamentos que geram sofrimento e, eventualmente, ultrapassar a limerência — independentemente do tempo que isso possa levar. Em última análise, o apoio de um terapeuta ou psicólogo pode ser muito útil e, acima de tudo, é crucial compreender que a limerência não é loucura — ainda que, para quem a vive, possa assemelhar-se exatamente a isso.
Originalmente publicado na edição de fevereiro de 2025 da Vogue Portugal, The Passion Issue, disponível aqui.
Most popular
.jpg)

Relacionados


Entrevista com Sofia Coppola: "Admiro a Priscilla por ter deixado o Elvis"
10 Jan 2024


The Passion Issue | To be continued: Sensibilidade e bom senso
09 Feb 2025