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Semana de Moda de Paris: a indústria em queda livre

17 Mar 2025
By Pedro Vasconcelos

Dior FW25 © Launchmetrics Spotlight

O clímax do fashion month foi representante do resto da Moda: caótico.

Encontramo-nos numa altura peculiar na Moda. Notícias de despedimentos, promoções e substituições nas lideranças das mais importantes maisons da indústria criam um caos palpável. Mas não se trata sequer do jogo de cadeiras ao qual infelizmente já nos habituámos, a indústria de luxo encontra-se em crise. Depois do boom pós-Covid, as contingências financeiras do mundo afetam todos—incluindo aqueles que se encontram no topo—e sem compradores não há vendas. As carências financeiras são catalisadoras de corridas desenfreadas, desgastantes caças de bodes expiatórios. Claro que quem arca as culpas não são aqueles que, sedentos de constante crescimento, fazem decisões desmedidas. Não, em vez, é o lado criativo que carrega com o peso da inevitável queda após um período de crescimento. Ah, que maravilha o capitalismo. Todo este desabafo para dizer que o medo de ruína financeira leva a uma instabilidade criativa que se sentiu no ar em Paris: de últimas coleções a estreias, já não estamos no precipício de mudança, estamos em queda livre.

Não deixemos que o tom pessimista das nossas reflexões afete a perceção da semana. Os nove dias foram entusiasmantes (talvez ainda mais pelo sentimento de insegurança que os permearam). Os dias mais interessantes foram os das estreias: Dries Van Noten, Tom Ford e Givenchy tiveram direito a atenção especial porque representavam aquilo que a indústria mais aprecia: a novidade. O primeiro da tríade a estrear-se foi Julian Klausner na Dries Van Noten. Para mim, e talvez para mais ninguém, esta foi a coleção para o qual estava mais nervoso. Não porque duvidasse da capacidade de Klausner—o designer trabalha na marca desde 2018—mas porque a fasquia é tão alta. O legado de Dries Van Noten é um de qualidade e rigor. Ao longo da sua carreira, o designer belga não é apenas um dos nossos favoritos, é uma constante na indústria. Felizmente, como em todas as outras facetas da sua marca, Van Noten escolheu o seu sucessor sensatamente. Por costume, a mudança de diretor criativo implica desvios criativos, uma tendência que felizmente a maison não seguiu. Após anos a acompanhar o fundador da marca, Klausner é fluente na linguagem de Van Noten. Outono/inverno 2025 foi o exemplo perfeito desta proeza: a coleção não podia ter sido mais fiel à imagem da maison. Padrões aparentemente contraditórios foram sobrepostos em perfeita harmonia, casacos pesados encontram-se cravejados de verdadeiras joias, mini saias estruturadas foram colocadas sobre calças fluidas: a coleção foi inconfundivelmente Dries Van Noten.

Dries Van Noten FW25

No espetro oposto desta filosofia encontramos Givenchy que, com a estreia de Sarah Burton marca um renascimento que era ansiosamente esperado. Desde Riccardo Tisci, a direção criativa da maison é turva, perdida entre as diferentes visões de todo um carreirinho de designers. A sua imagem clássica, associada à amizade pessoal e profissional de Hubert Givenchy com Audrey Hepburn, foi completamente dissolvida. Até à saída de Matthew Williams o conceito encontrava-se apoiado num modernismo que há muito tinha estagnado. É neste contexto que Burton cria a sua primeira coleção. O que a designer escolheu fazer foi inteligente. Mestre na preservação de legados—durante mais de uma década foi responsável por manter a visão de Lee McQueen—Burton focou-se na visão de Mr. Givenchy como ajuda à navegação. Camisas Bettina em cabedal, vestidos esculturais e peças com sentido de humor (como um vestido repleto de maquilhagem) foram odes ao legado do fundador da maison. Claro que as suas sensibilidades não foram esquecidas. O seu domínio em alfaiataria possibilitou vestidos estruturados com colarinhos interessantes que, quando as modelos passavam, revelavam que eram de facto casacos blazer construídos ao contrário. 

Givenchy FW25

A última estreia—e talvez a mais entusiasmante—foi a de Haider Ackermann na Tom Ford. Após uma ausência de quase seis anos na indústria, o designer francês retorna, desta vez na direção da marca americana. À primeira vista, o par pode parecer improvável: Ford, famoso pela sensualidade aberta das suas criações, e Ackermann, conhecido por uma sensibilidade militar e mestria sobre cor. Talvez por isso nos encontrássemos todos tão fascinados. O resultado foi igualmente fascinante: uma coleção subtilmente sensual de um ponto de vista incomum. Dito isto, o desfile teve o começo esperado: cabedal dos pés à cabeça. Sets monocromáticos e casacos estruturados abriram o desfile até que fatos—um staple num desfile da Tom Ford—inundaram a passerelle. Estes conjuntos, que contrastam rosa-pálido com verde elétrico, amarelo precioso com castanho-escuro, roxo vibrante com bege subtil são Ackermann dos pés à cabeça. Em geral, a sexualidade do designer francês foi ausente do male gaze que define a visão de Ford, apoiando-se muito mais proximamente do female gaze. Sensualidade não foi pensada como uma manifestação física, mas como uma recompensa intelectual. 

Tom Ford FW25

Tom Ford FW25

Mas nem tudo é caos e novidade. Outros encontram-se à beira da mudança. Na Chanel, o estúdio de design apresentou a sua última coleção antes da antecipada estreia de Matthieu Blazy. A coleção apoiou-se nos códigos clássicos da maison: sets em tweed, carteiras acolchoadas e, para outono/inverno 2025, laços. E, ainda que o maior tenha certamente o que adornou o centro da passerelle, outros encontraram-se omnipresentes na coleção, de padrões encontrados em malhas a peças de joalharia brilhantes. Mas, mesmo dentro do vocabulário expectado da maison, houve divergências interessantes—o desfile abriu com sets em tweed cobertos de tule que, na sua silhueta, se apresentavam como vestidos volumosos. É este género de engenho que prova o savoir-faire que, há mais de um século, sustenta a maison

Chanel FW25

À menção de savoir-faire não temos como deixar de mencionar Christian Dior que, para outono/inverno 2025, se aventurou por uma travessia artística. Em colaboração com o artista Robert Wilson, Maria Grazia Chiuri, apresentou uma coleção que refletiu sobre alguns dos momentos mais icónicos na maison: t-shirts gráficas, saias estruturadas e camisas reinventadas pontuaram o desfile. Mas, mais do que momentos específicos, o desfile tocou na essência do que é a Dior de Chiuri: uma reconsideração wearable de roupa histórica. Neste caso, panniers e tournures são integrados em alfaiataria de forma fluída. Casacos de cabedal assemelham-se a armaduras medievais. Trench coats volumosos são construídos a partir de cetins delicados. Inspirada na transformação da personagem titular no livro Orlando (1928) de Virginia Woolf, Chiuri caminhou a linha ténue entre guarda-roupa feminino e masculino a partir de propostas que questionam a história da diferença entre os dois. 

Dior FW25
Dior FW25

Dior FW25

Na Louis Vuitton, Nicolas Ghesquière apoderou-se de L’Étoile du Nord, a antiga sede de uma das empresas de comboios mais antigas do mundo. Inspirando-se na união que existe numa plataforma como uma estação de comboios—unidos por um propósito comum—o designer partiu da iconografia de filmes que rodeiam à volta do meio de transporte. Ironicamente, mesmo que inspirado pelo propósito comum, partiu de filmes tão divergentes como Snowpiercer (2013) e Casablanca (1942). Partindo desta dicotomia, Ghesquière criou uma coleção repleta de personagens. Malhas volumosas com formas quadradas, trench coats em furta-cor, capas que abraçaram o corpo como se de presentes se tratassem: a diversidade das propostas é uma referência direta à pluralidade dos destinos de cada um dos 60 looks. Se Louis Vuitton ambicionou à união por meio da diversidade, Hermès traça um caminho bem mais linear. Outono/inverno 2025 marcou um movimento na direção criativa de Nadège Vanhée, afastando-se da sua estética predileta para algo mais escuro, ligeiramente fetichista. E, ainda que a coleção não tenha sido necessariamente sensual, a sua mensagem foi clara. Nos bastidores, Vanhée revelou a sua intenção de falar diretamente a mulheres que se sentem confortáveis na sua sexualidade.

Louis Vuitton FW25; Hermès FW25

Louis Vuitton FW25; Hermès FW25

Ao contrário do que é costume, Loewe optou por uma apresentação em vez de um desfile. Após a notícia da saída de Jonathan Anderson da maison hoje de manhã, a coleção foi sentida como uma espécie de retrospetiva, reformulando alguns dos momentos mais icónicos na década em que o designer passou a liderar a marca. De esculturas de tomates gigantes a secções dedicadas à dissecação da puzzle bag, a Loewe assumiu o controlo de um Hotel Particulier na Rue de L’Université. Entre a opulenta decoração da casa, as criações de Anderson fizeram-se de exposição, considerando o legado de um designer que tem tanto de artista. Secções dedicadas a joalharia, sapatos, carteiras, e até óculos (apresentados numa mini escada em caracol) foram lembranças da marca que a Loewe se tornou sobre a direção de Anderson. Há dez anos que a maison se encontra em constante expansão, elevando o legado de artesanato espanhol à escala global. Agora, o seu líder sai de casa à procura de novos territórios. Algo nos diz que o trajeto não vai ser longo, apostamos aliás que não será sequer necessário sair das fronteiras parisienses. Até lá, caos—mais do mesmo.

Loewe FW25

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